Teorema do “Plantio e Colheita”

Pensar na vida é algo que as vezes me ocorre. No disparo acidental de algum gatilho emocional me lembrei do valioso conselho de um amigo (que outrora foi me chefe), na verdade uma explicação sobre alguma teoria do “funcionamento das coisas”.

Na ocasião me explicou que a vida de certo modo é uma alternância de “plantios” e “colheitas”.

“Existe uma fase na nossa vida que a única coisa que fazemos é plantar, e quando já estamos aborrecidos com a demora da colheita aparecem os primeiros frutos, só que em quantidade bem menor do que as sementes plantadas”

“Em um segundo momento começamos a colher em uma proporção parecida com a que plantamos. Chega então o momento em que, talvez já um pouco cansados da labuta, nós plantamos menos. Mesmo assim continuamos a colher.”

“Um dia não conseguirá mais plantar e dependerá dos frutos das sementes que foram plantadas no passado”

Não é difícil pensar que “plantar muito e colher pouco” é mais fácil para um jovem, e que talvez um velho não tenha mais força para plantar. Deve ser mais prazeroso para alguém da terceira idade se sentar na sombra de uma árvore, e levantando o braço um pouco acima da cabeça poder agarrar um fruto pra se saciar.

Isso não se trata de um daqueles check list para a vida (do tipo plante até os 30, faça isso aos 40, etc…); sei que é possível fazer coisas extraordinárias a qualquer idade, mas encarando o conselho com um pouco de sabedoria, me parece que viver bem é viver com coerência. Principalmente coerência com o tempo.  

A dissertação do meu amigo acabou por aí, mas matutando um pouco mais sobre a “teoria dos plantios e colheitas” é possível adicionar um pouco mais de substância à discussão. Existem algumas constantes no teorema que podem valer algumas observações:

“Só se pode colher depois de plantar”

“A colheita é proporcional às sementes plantadas”

Se nossa felicidade depende da satisfação de nossas expectativas, imagine que alguém ambicioso apenas se sentirá feliz com uma grande colheita. Para colher muito terá que plantar bastante, o que significa mais sacrifício. Caso sua determinação não seja tão grande quanto sua ambição, e com isso não se dedique tanto ao plantio quanto deveria, um dia olhará para a sua colheita e ficará frustrado com seu resultado. Se sentirá infeliz.

Nossa felicidade só pode ser alcançada em equações coerentes. Podemos enumerar algumas:

Se você for muito ambicioso terá que plantar mais.

Se além de ambicioso for impaciente, terá que plantar mais e mais rápido (ou talvez mais cedo) já que leva um tempo para começar a colher.

Se sua disposição para o plantio não for muita deverá se contentar com uma colheita menor.

Se quiser se aposentar mais cedo também terá que plantar mais cedo ou mais.

Quem é feliz com uma colheita modesta pode se dar ao luxo de não se preocupar tanto com a quantidade plantada.

Independente do que faça, caso plante feijão, ainda que colha aos 90 dias após o plantio, colherá feijão. Quem deseja colher jabuticabas talvez deverá esperar uma dúzia de anos.

Geraldo Gontijo

 

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