Adubação nitrogenada em milho: velhos paradigmas e novos aprendizados

Uma das coisas que aprendi trabalhando com agricultura é que não podemos considerar nada como uma verdade absoluta, critérios técnicos mudam ao longo do tempo, paradigmas são quebrados e construídos a cada safra.

Quando falo para meus clientes sobre o manejo da adubação nitrogenada na cultura do milho, quando ensino os meus alunos sobre o assunto, sempre digo que é melhor antecipar do que atrasar a cobertura. Quem cultiva milho a mais tempo talvez se lembre de como eram os padrões de adubação: ureia parcelada, aplicada entre 4 e 8 folhas. Assim que comecei o trabalho de consultoria, foi esse um dos primeiros paradigmas que quebrei, passei a recomendar todo o N até a terceira folha, em alguns casos aplico toda a necessidade da cultura logo após o plantio. Para que pudesse chegar a essas recomendações, foi preciso entender melhor o ambiente de cultivo e aprender algumas coisas sobre a cultura do milho, explico melhor a seguir:

  • Milho sobre palhada de trigo

    A maioria dos meus clientes cultiva milho verão ao invés de milho safrinha, as áreas de cultivo estão a mais de 900 metros de altitude em solos muito argilosos, sendo que parte considerável é semeada sobre palhada de trigo ou aveia.

  • Alguns pesquisadores argumentam que em condição de campo, o tempo entre a aplicação do N e o uso metabólico do nutriente pela cultura pode chegar a mais de 15 dias. Nesse intervalo de tempo ocorre a solubilização do fertilizante, a dinamização do nutriente por processos bioquímicos no solo, a absorção pela planta, sua metabolização e por fim o uso na síntese de compostos úteis no organismo vegetal.
  • Na composição da produtividade da cultura do milho, o potencial de produção é definido com quatro folhas, onde a maior parte das estruturas da planta, incluindo primórdios foliares e do pendão, já estão formados. Nos estádios que se seguem, em V8 e V12 define-se o número de fileiras e o tamanho da espiga. O N deve ser ofertado no tempo e quantidade certos para maximizar esses processos e garantir a melhor produtividade.

Na realidade que descrevi a elevada altitude, as chuvas irregulares no início do verão e o excesso de palha atrasam a disponibilidade do N aplicado. Para atender a demanda da lavoura em V4 o fertilizante deve ser aplicado 3 estádios antes, já na primeira folha, logo, antecipar a cobertura é a solução.

Talvez você agora esteja se perguntando:

  • Aplicar todo esse fertilizante antecipadamente não aumenta as perdas?
  • E a necessidade da cultura nos estádios de desenvolvimento mais avançados? A planta não absorve N no estágio reprodutivo?

A resposta para esses questionamentos não é simples, na realidade, é tão complexa quanto à dinâmica do nitrogênio. Para não correr o risco de me enveredar na teoria da fertilidade do solo e da nutrição de plantas entenda o seguinte: devemos fazer o sistema de produção trabalhar a favor da cultura e do agricultor.

Milho sobre palhada de trigo em R3 em rotação com soja verão

Para entender melhor minhas recomendações, vou ponderar alguns pontos. Em primeiro lugar eu opto pela comodidade, recomendo nitrato de amônio ao invés de ureia. Apesar de ter um maior custo, faço a aplicação desse fertilizante sem me preocupar com as previsões de chuva por que sei que nesse caso as perdas por volatilização serão mínimas. Em segundo lugar, protejo meu investimento em adubação com um sistema de produção equilibrado, apoiado no tripé: perfil de solo, rotação de culturas e palha!

Palha em decomposição próxima às raízes

Para facilitar o entendimento sobre o que acabei de dizer o importante é saber que o perfil de solo garante a distribuição do sistema radicular em profundidade, assim, a maior parcela do N que lixiviar (caso lixivie) poderá ser absorvida nas camadas mais profundas. A palha e a rotação de culturas auxiliam na ciclagem do nutriente. Uma parte considerável do fertilizante aplicada será imobilizada pelos resíduos vegetais, enquanto estiver sendo utilizada pelos microrganismos decompositores estará protegida dos processos de perda e gradualmente será disponibilizada para o sistema. Nesse caso é preciso fazer do processo de imobilização um aliado, para isso o ‘timing’ de aplicação e o ajuste de doses são fundamentais. Com todo o sistema funcionando bem, o milho responderá com algo próximo a 1 saco de grãos por kg de N aplicado na safra de verão.

Confesso que consegui compreender bem tudo isso que acabei de dizer apenas nessa última safra. Entre os erros que a gente comete um dos mais graves me parece ser querer multiplicar processos sem entender os fundamentos que suportam eles. Agora vou contar a você uma experiência diferente.

Na última safra vivi um desafio novo como consultor, em um projeto recente de assistência técnica acompanhei a produção de milho numa situação completamente distinta daquela que vinha experimentando. O cenário foi: áreas de abertura sobre pastagem, solos de textura média e precipitação elevada (2.300 mm por ano), tudo isso a 300 metros de altitude. Como as minhas recomendações de adubação vinham dando certo me parecia que a alternativa era simplesmente replicar o processo, o resultado você pode ver na foto abaixo:

Lavoura manifestando deficiência de N na folha oposta e abaixo à espiga

A lavoura acima manifestou deficiência de nitrogênio como eu não via há muito tempo, as espigas ficaram pequenas e leves, pesando não mais que 140 gramas. Um dos componentes mais afetados pela nutrição deficiente foi o peso de mil grãos, que neste caso ficou entorno de 280 gramas (em áreas de alta produção esse indicador costuma ficar acima de 350 g).

Se compararmos os dois casos que citei fica mais fácil entender a raiz do problema técnico apontado. O ambiente de produção mais desafiador, com alta pluviosidade e textura leve, e a ausência de um sistema de produção elaborado leva à diminuição da eficiência do uso do fertilizante nitrogenado. A falta de um sistema de produção elaborado jogou contra a lavoura e o agricultor nesse caso.

Em uma rotina de assistência técnica o primeiro desafio é saber o que fazer para solucionar um problema, nesse caso conhecer os fundamentos por trás dos resultados agronômicos é fundamental. O segundo problema é como fazer para construir essas soluções. Os desafios ainda me aguardam no campo, com eles vêm também novos esforços. Espero poder contar em outra estória um resultado diferente para esse novo desafio.

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Me surpreendendo com a cigarrinha-do-milho na safra 17/18

No último dia 17 de novembro estive viajando pelo interior de São Paulo e tive a oportunidade de visitar algumas áreas de lavoura na região de Casa Branca, a convite de um amigo dos tempos de faculdade. Pra quem não conhece, Casa Branca é uma cidade situada próximo à divisa com o Sul de Minas, compreendendo um dos maiores perímetros irrigados do país. Além do cultivo de cana-de-açúcar, se vê muito citros, batata, soja e milho por ali.

Os danos provocados pela cigarrinha estão na boca do produtor onde quer que se vá nesse país, confesso que participei de muitos encontros técnicos sobre o problema no último ano, como consultor, me deparei com a praga em alguns de meus clientes. Embora não seja novidade, me surpreendeu a expressão dos danos que encontrei nas áreas de pivô, sobretudo, por que eram lavouras de milho semeadas no fim de agosto e início de setembro. Nessa situação, o plantio precoce deveria garantir o escape da lavoura do pico de população da praga, e a temperatura amena diminuir a velocidade com que se multiplica.

Aproveitando o caso, vou compartilhar contigo o que vi e que pude aprender nesse último ano sobre a praga.

A maioria sabe que a cigarrinha é vetor de um vírus (raiado fino) e dois mollicutes (enfezamento pálido e vermelho). Se os danos da praga ocorreram em alguma área que tenha visto, você constatou que a maioria das plantas atacadas (que provavelmente estavam tombadas) não apresenta nenhum sintoma nas folhas ou no colmo. Esse é o primeiro ponto de interesse, algo em torno de 90% das plantas infectadas não demonstra nenhum tipo de sintoma externo, sendo assim, pode haver três situações distintas:

– essas plantas poderão tolerar o problema e produzir espigas dentro de padrões aceitáveis;

– poderão sofrer com a infecção e produzir espigas fora dos padrões normais, com menor tamanho e peso de grãos;

– poderão vir a tombar e deixar de contribuir com a produção da lavoura.

Em uma das áreas que visitei naquele dia pude ver uma lavoura com alta infestação de cigarrinha sem nenhuma planta acamada. Você pode detectar que a infestação estava alta pela quantidade de fumagina nas folhas baixeiras. O fungo Capnodium sp. que cresce sobre a folha (aproveitando a excreta açucarada do inseto) impede a atividade fotossintética. Com balanço energético negativo, a planta ‘descarta’ essas folhas, diminuindo sua área foliar.

Nesse caso você observa que entre os híbridos de milho há diferentes graus de tolerância ao problema.

O segundo ponto de interesse é: por que algumas plantas infectadas tombam?

Ouvi de um especialista que o local de maior multiplicação dos mollicutes em uma planta de milho são os feixes vasculares, sobretudo aqueles do colmo, próximo à base da planta. Como resultado disso, ocorre uma resistência na passagem de seiva, que, forçada pela pressão interna dos vasos, extravasa pelos tecidos do colmo. Pude constatar evidências disso nas lavouras que visitei. Na imagem abaixo você pode ver que na periferia do colmo o tecido está com uma aparência encharcada, com um verde brilhante, diferente da coloração branca do centro.

Na fisiologia da planta, é interessante entender que quando se inicia o desenvolvimento reprodutivo há uma mudança na partição de fotoassimilados e compostos de defesa entre suas diferentes estruturas. As plantas não possuem anticorpos como nós, os animais, mas produzem compostos químicos que as ajudam a se defender das infecções por fungos, bactérias e vírus. Durante o desenvolvimento vegetativo, boa parte da energia produzida é destinada à manutenção das folhas, bainhas e colmos, isso muda com o florescimento. Após o início da fase reprodutiva a prioridade passa a ser a espiga e os grãos, assim, a maior parte da energia é deslocada para o crescimento e desenvolvimento dessas estruturas, em detrimento da integridade do colmo e das folhas. Como resultado há uma maior propensão às doenças.

O processo que descrevi acima ocorre naturalmente, com ou sem a presença dos mollicutes e vírus, mas o que muda quando a planta está infecta? Nesse caso, a vulnerabilidade às doenças que já é natural (para a fase reprodutiva) aumenta. O resultado: aumenta-se também a ocorrência de podridões de colmo.

Os fungos causadores de podridão de colmo em milho são um caso clássico de patógenos oportunistas. Phytium sp., Colletotrichum sp., Fusarium spp. e Diplódia sp. aproveitam que o colmo está fragilizado para infectarem o tecido. O seiva extravasada na medula se torna um substrato rico para esses fungos, que passam a se multiplicar numa velocidade maior do que àquela que ocorreria naturalmente. Esse cenário combinado com a alta incidência de plantas infectadas pelos mollicutes termina nas imagens catastróficas de lavouras inteiras acamadas.

É impressionante o que podemos constatar num dia rodando lavoura. O problema da cigarrinha-do-milho sem sombra de dúvidas é complexo, o monitoramento atento e as informações certas são imprescindíveis para combatê-la!