Tubixaba tuxaua: o maioral dos maiorais

Quando um colega do RS me enviou a foto acima não hesitei em levantar a hipótese de danos por nematóides. Qualquer agrônomo que receba fotos com sintoma de reboleira pensa nessa  primeira alternativa, e esse caso não era uma exceção.

O espanto veio quando ele mostrou alguns vídeos das raízes de trigo com vários vermes ‘saltando’ delas. Milhares de minúsculas e delgadas ‘lombrigas’ brancas. Você pode conferir logo abaixo:

Esse vídeo foi enviado em um grupo de técnicos da região sul, com quem tive a satisfação de participar de alguns treinamentos. Entre algumas dezenas de colegas não houve algum que soubesse ‘palpitar’ sobre a praga. Não é pra menos, isso não tem nada a ver com o que a maioria de nós está acostumada sobre nematóide, nada que se pareça com meloidogyne, pratylenchus, cisto ou nematóide reniforme. Um bicho desse visto a olho nu é novidade para grande parte dos agrônomos, técnicos e produtores do país.

Me lembrei de uma curiosidade dita por um pesquisador da área, um nematóide intitulado o ‘maioral dos maiorais’ de tão grande que é, o tal do Tubixaba tuxaua. Levantada a hipótese o colega Rogério Silveira (a quem agradeço pelas fotos e vídeos) obteve o laudo de análise de nematóides confirmando o palpite.

Não se tem muitas informações sobre essa espécie e poucas ocorrências são encontradas por aí (felizmente), os danos podem aparecer em soja, milho, trigo e outras culturas (não sei dizer muito sobre sua magnitude). Compartilho esse registro para que mais colegas possam tomar conhecimento sobre esse inimigo que talvez venha a aparecer em mais lavouras pelo nosso país.

Eng. MS Geraldo Gontijo

De olha na lavoura de soja: sintomas e sinais na safra 19/20 – Parte III

Para arrematar o relato dos sintomas e sinais observados na safra 19/20 em lavouras de soja deixo o registro de algumas ocorrências de doenças que apesar de comuns tem lá os seus detalhes que merecem ser compartilhados.

Qualquer um que já tenha tentado identificar a ferrugem asiática (FAS) no aparecimento dos primeiros sintomas sabe a dificuldade que é poder “bater o martelo” e ter a certeza de o que vê é realmente ferrugem. Do outro lado, dificilmente você terá dúvida sobre os sintomas caso eles já estejam com severidade avançada, no final do ciclo da cultura. 

Uma curiosidade sobre a FAS é que possível observar uma diferença na forma com que os sintomas se expressam ao longo do desenvolvimento da cultura.

Normalmente, em uma folha com severidade avançada da doença, as urédias se espalham uniformemente por todo o limbo foliar.

Sintoma comum de ferrugem asiática da soja

Uma peculiaridade ocorre quando as últimas urédias se formam já no final do ciclo da cultura. Quando o ciclo chega ao fim e a queda natural das folhas se aproximam as urédias surgem agrupadas em pequenas áreas do limbo, em alguns casos se agrupam de tal maneira que podem ser confundidas com uma mancha foliar.

Agrupamento típico de urédias de ferrugem asiática da soja no final do ciclo

Encerrando meu relato falo um pouco de uma doença que ficou esquecida por alguns anos mas que tem reaparecido e aumentado seus danos a pelo menos duas safras. O crestamento de cercóspora (Cercóspora kikuchii) perdeu um pouco sua expressão à medida que o manejo de ferrugem se intensificou com o aumento do número aplicações e com o reforço de fungicidas multissítios. Hoje se especula que o surgimento de novas raças, tolerantes às circunstâncias de manejo, provocou um aumento dos danos por essa doença no campo.

O crestamento de cercóspora faz parte do clube das doenças de final de ciclo (DFC). Seus sintomas têm uma expressão pouco precisa, que vão de manchas foliares irregulares a um bronzeamento arroxeado aparentes já no final do enchimento de grãos (por isso DFC). 

Sintoma foliar de cercóspora em soja

Normalmente você irá observar uma maior quantidade de sintomas nas folhas do topo da lavoura, muitas delas adquirem uma textura coriácea (mais áspera ao tato). Concluindo o script, na colheita se observa os típicos grãos de cor roxa (o tegumento, a casca, dos grãos formados em plantas atacadas apresenta uma coloração púrpura bem chamativa).

Vale a pena aproveitar o relato para detalhar algumas informações interessantes e importantes. O período que vai da infeção ao aparecimento dos primeiros sintomas da doença (o que chamamos de período latente) pode ser bastante longo quando comparado a outros patógenos, para cercópora ele pode chegar a 3 ou 4 semanas (para FAS ele é de uma semana).

Outro ponto que merece destaque é que o patógeno pode ser detectado em qualquer fase da cultura em praticamente todas as estruturas da planta (folha, haste, pecíolo, vagem e grão) ainda que não haja sintomas visuais da sua presença (o que tem relação com a primeira informação descrita).

Por último, existem relatos de pesquisadores de que em um lote de sementes produzidas em uma lavoura doente mais de 80% das sementes purpuras (ou seja, com sintoma visual) originam plantas com sintomas da doença. No entanto, das sementes do mesmo lote que não apresentam o sintoma visual (coloração normal), algo próximo de 20% delas também dão origem a plantas que expressam a doença. Trocando em miúdos, existe uma boa proporção de sementes que podem estar contaminadas e não apresentar o tegumento arroxeado caso o campo de produção tenha incidência da doença.

A cercóspora é um dos patógenos mais frequentes em análise patológica de sementes, a boa notícia é que causa pouco impacto sobre a germinação e o vigor. O principal ponto negativo é que as sementes infectadas servem de inóculo inicial para a doença no campo, sobretudo em áreas de abertura.

Lavoura de soja com cercóspora nos terços inferior e médio

Na safra 19/20 sofri um pouco com a incidência de cercóspora nas lavouras que tive a oportunidade de assistir, incluindo áreas de primeiro ano de produção (em abertura sobre pastagem). Me chamou atenção em alguns casos o aparecimento dos sintomas nas folhas do terço médio e inferior no início do enchimento de grãos (foto acima). Até então estava acostumado a me deparar com esses sintomas no topo da lavoura já próximo à dessecação. Talvez 1 ou até 3 sacos de produtividade tenham se perdido.

Para me precaver, na safra 20/21 já está posicionado o uso do multissítio clorotalonil em uma ou duas aplicações entre as últimas da lavoura. Muitos trabalhos de pesquisa no ciclo 19/20 apontaram ser esse o manejo mais eficiente para controle do crestamento de cercóspora nas lavouras de soja.

Vamos ver o que a safra 20/21 nos reserva…

Eng. MS Geraldo Gontijo