De olho na lavoura de soja: sintomas e sinais na safra 19/20 – parte I

Começo esse artigo recordando o conselho de um amigo que em um momento de dúvida, em prosseguir a carreira acadêmica ou me dedicar a consultoria, me disse: não há nada que nos ensine mais que uma safra bem vivida!

Aproveitando esse conselho, compartilho com você um pouco do que pude observar na safra 19/20, entre tudo que se passou nas áreas de alguns clientes nos estados de São Paulo e Minas Gerais. As imagens a seguir retratam as evidências de algumas doenças, seus sintomas (uma manifestação morfo-fisiológica de sua ação no tecido vegetal) e sinais (estruturas do patógeno nos tecidos atacados), um pouco do que você já pode ter ouvido falar por aí mas dificilmente deve ter encontrado bem representado em fotografias.

O primeiro sinal que vou retratar é uma manifestação curiosa de míldio em soja. A maior parte dos colegas que acompanha lavoura conhece um sintoma típico de míldio: pequenos pontos amarelos na superfície da folha que correspondem a um crescimento cotonoso branco na face inferior. O que poucos conhecem é uma manifestação de míldio caracterizada como sistêmica (foi assim que encontrei descrito em um livro de fitopatologia).

A coloração amarela e o crescimento cotonoso típicos estão presentes nessas lesões, no entanto, ao invés de pequenos pontos você pode observar uma grande mancha que cresce a partir da nervura central, cresce pelo limbo e “derrama” até a borda da folha. A mesma referência fala que esse é um dos poucos casos de infecção sistêmica por doenças fúngicas (o outro exemplo seria carvão em milho).

Caminhando pela lavoura um sintoma comum de se encontrar são plantas, isoladas ou em reboleias, com folhas “carijó”, que evoluem para murcha e seca (em muitos casos as folhas permanecem atadas à planta após sua morte). Existe uma enormidade de doenças que se enquadra nessa descrição, a maioria delas relacionadas a solo ou haste: macrophomina, fusarium, nematoide de galhas, cancro da haste, mofo-branco (MB).

Para diferenciar essas possibilidades o primeiro passo é procurar evidências da doença (sinais ou sintomas) na haste ou raiz. Isso pode excluir as possibilidades de cancro e MB (nesse caso as folhas murcham, mas não aparentam o sintoma típico de folha “carijó”) que atacam as hastes, das demais, que atacam o sistema radicular.

As hastes de plantas atacadas por cancro apresentam lesões castanho-escuras, enquanto àquelas atacadas por MB o crescimento cotonoso branco típico do fungo (seu micélio). Com o avanço do ciclo da soja as lesões de MB secam, as áreas recobertas pelo micélio adquirem uma coloração castanho-avermelhada, muitos escleródios se formarão no interior da haste, na região da medula. 

Investigando o sistema radicular você pode encontrar galhas (um indício nematoide), uma coloração acinzentada ou vermelho-castanho no colo da planta. Raízes e colo de coloração acinzentada se expressam em condição de estresse hídrico, condição ideal para manifestação de macrophomina (podridão cinza ou de carvão da raiz) que normalmente surge no final do ciclo da cultura.

A “podridão vermelha da raiz” (PVR) é uma doença causada por Fusarium sp., caracterizada por uma coloração vermelho-castanho próxima as raízes da planta, como o próprio nome sugere. Essa doença normalmente se manifesta em solos de melhor fertilidade, de textura mais pesada e na maioria das vezes com algum grau de compactação. Você provavelmente encontrará plantas manifestando os sintomas já no início da fase de enchimento de grãos, em condições de clima regular ou chuvoso.

A última evidência para concretizar o diagnóstico é a observação da coloração do lenho, na base da haste principal. As plantas atacadas pela PCR apresentam um escurecimento do lenho que contrasta com a coloração clara das plantas sadias (essa é uma evidência típica de doenças que comprometem o sistema vascular).

Planta infectada à esquerda e sadia à direita

Eng. MS Geraldo Gontijo