Conhecendo um pouco da agricultura da África do Sul

A África do Sul não é do tipo de país reconhecido por suas estatísticas agrícolas, especialmente quando se fala em produção de grãos. Há algum tempo atrás tive a oportunidade de conhecer aquele lugar, além de uma infinidade de pontos turísticos, conheci a realidade de alguns produtores agrícolas de uma cidadezinha do interior de Western Cape, Moorreesburg.

À primeira vista me senti entrando numa daquelas cidades do meio oeste americano que se vê em filmes: uma avenida central com talvez uns dois quilômetros de extensão, larga, com calçadas amplas onde se contavam algumas revendas agrícolas, um mercado e posto de gasolina, e ao final um grande silo de grãos. Dos pouco mais de 12.000 habitantes a maioria era agricultor, brancos, de ascendência britânica ou holandesa, habituados a se comunicarem em africâner.

Na minha primeira viagem internacional como agrônomo notei que não parece importar a nacionalidade dos agricultores, onde quer que se vá todos falam sobre os custos de produção que nunca param de subir e do clima sempre instável e penoso, e esse foi o primeiro ponto que me chamou a atenção, o clima.

A África do Sul detém a maior parte do seu território sobre clima semiárido ou árido, no litoral é possível encontrar uma faixa de terra onde o clima é mediterrâneo, local onde se cultivam muitas frutíferas temperadas e se produz grande parte do leite desse país. Alguns quilômetros adentro do continente, onde ainda há influencia da maritimidade, encontram-se áreas de produção de grãos e pecuária, sobre tudo a criação de ovinos e o plantio de cereais de inverno. E aqui temos a primeira informação que pode gerar espanto, toda essa produção agrícola conta com algo próximo a 400 mm anuais de precipitação, sendo a maior parte realizada em sequeiro.

Com um regime de chuvas desses não há como produzir soja ou milho com tetos significativos de produtividade, mas para algumas culturas de inverno, onde a produtividade não passa de 4 toneladas de grãos por hectare, é suficiente. O regime de chuvas no Cabo Ocidental é bem peculiar, a precipitação ocorre durante o inverno, normalmente de maio a setembro. Pra quem é acostumado com as pancadas de chuva do verão brasileiro, a chuva na África do Sul é como uma garoa, mansa e constante, que cai durante alguns dias em todas as semanas da estação. Esse comportamento é fundamental para o sucesso dos cultivos, pois boa parte dos solos são rasos ou pedregosos. Com pouca profundidade efetiva, as lavouras necessitam de reposição constante da água do solo.

As principais culturas dessa região são o trigo, cevada, canola, aveia e tremoço, essas duas últimas utilizadas principalmente para a alimentação animal, entre esses cultivos, o trigo foi aquele com que tive a maior proximidade.

Existem alguns pontos interessantes quando comparamos a forma como eles cultivam trigo com a brasileira. Uma característica marcante deles é que o plantio é feito todo de maneira antecipada, ‘no pó’, como podemos dizemos aqui no Brasil. Como as chuvas são escassas, qualquer precipitação perdida pode significar alguns bons sacos a mais de produtividade, então os agricultores do cabo ocidental realizam a semeadura no fim de abril e começo de maio, uma quinzena antes de a chuva começar. Para dar conta dessa empreita eles utilizam semeadoras com alto rendimento operacional, muito diferentes daquelas que utilizamos aqui no Brasil.

Boa parte do maquinário Sul Africano é importada da Europa ou Austrália, as semeadoras de grãos miúdos seguem os padrões desses países e possuem características muito interessantes, elas são preparadas para o cultivo mínimo. Na África do Sul não se faz o cultivo de solo com aração e gradagens como se faz nos países de clima frio, no entanto, também não é feito o cultivo sobre palha como o Sistema Plantio Direto brasileiro. Por lá toda a palha produzida pelas culturas é utilizada na alimentação animal. Sem revolvimento de solo e sem palha as semeadoras fazem o plantio sobre o solo nu, equipadas apenas com botinhas (nesse caso configuradas para fazer uma escarificação profunda), sem a necessidade de discos de corte.

Outra característica interessante é que nas semeadoras de trigo tanto a distribuição de sementes como adubos é pneumática. Existe um reservatório único repartido em dois compartimentos (para semente e adubo), uma turbina acionada pelo trator comprime o ar dentro do reservatório expelindo as sementes e fertilizantes por um conjunto de mangueiras que levam esses insumos direto para os carrinhos de plantio (parecido com o que há em algumas semeadoras de soja e milho). Por lá é possível encontrar máquinas com mais de 40 linhas de plantio e até 12 metros de largura, com as quais se pode semear até 60 hectares de lavoura por dia.

Um último ponto que me chamou atenção no cultivo do trigo foram as taxas de semeadura e de adubação. Na minha realidade, cultivo desse cereal no Sul de Minas, é comum utilizar cerca de 100 a 150 kg de MAP e 180 a 220 kg de sementes/ha no plantio. Por lá o uso de fertilizantes e sementes é bem mais modesto, os agricultores utilizam de 20 a 30 kg de fósforo e cerca de 120 kg de sementes no plantio.

Com um regime de chuvas regular, o potencial de produção de trigo das lavouras do Cabo Ocidental fica em torno de 4 a 4,5 ton/ha.

Essas são apenas algumas particularidades da agricultura daquele lugar, posso afirmar que qualquer um que conhecer as áreas de produção da África do Sul ficará impressionado com o nível de profissionalismo e organização de seus agricultores. É incrível conhecer uma agricultura tão elaborada em condições tão restritivas.

Ao lado esquerdo, Penna, o amigo que tive a oportunidade de conhecer e quem me mostrou a agricultura na África do Sul

Eng. Ms. Geraldo Gontijo