Me surpreendendo com a cigarrinha-do-milho na safra 17/18

No último dia 17 de novembro estive viajando pelo interior de São Paulo e tive a oportunidade de visitar algumas áreas de lavoura na região de Casa Branca, a convite de um amigo dos tempos de faculdade. Pra quem não conhece, Casa Branca é uma cidade situada próximo à divisa com o Sul de Minas, compreendendo um dos maiores perímetros irrigados do país. Além do cultivo de cana-de-açúcar, se vê muito citros, batata, soja e milho por ali.

Os danos provocados pela cigarrinha estão na boca do produtor onde quer que se vá nesse país, confesso que participei de muitos encontros técnicos sobre o problema no último ano, como consultor, me deparei com a praga em alguns de meus clientes. Embora não seja novidade, me surpreendeu a expressão dos danos que encontrei nas áreas de pivô, sobretudo, por que eram lavouras de milho semeadas no fim de agosto e início de setembro. Nessa situação, o plantio precoce deveria garantir o escape da lavoura do pico de população da praga, e a temperatura amena diminuir a velocidade com que se multiplica.

Aproveitando o caso, vou compartilhar contigo o que vi e que pude aprender nesse último ano sobre a praga.

A maioria sabe que a cigarrinha é vetor de um vírus (raiado fino) e dois mollicutes (enfezamento pálido e vermelho). Se os danos da praga ocorreram em alguma área que tenha visto, você constatou que a maioria das plantas atacadas (que provavelmente estavam tombadas) não apresenta nenhum sintoma nas folhas ou no colmo. Esse é o primeiro ponto de interesse, algo em torno de 90% das plantas infectadas não demonstra nenhum tipo de sintoma externo, sendo assim, pode haver três situações distintas:

– essas plantas poderão tolerar o problema e produzir espigas dentro de padrões aceitáveis;

– poderão sofrer com a infecção e produzir espigas fora dos padrões normais, com menor tamanho e peso de grãos;

– poderão vir a tombar e deixar de contribuir com a produção da lavoura.

Em uma das áreas que visitei naquele dia pude ver uma lavoura com alta infestação de cigarrinha sem nenhuma planta acamada. Você pode detectar que a infestação estava alta pela quantidade de fumagina nas folhas baixeiras. O fungo Capnodium sp. que cresce sobre a folha (aproveitando a excreta açucarada do inseto) impede a atividade fotossintética. Com balanço energético negativo, a planta ‘descarta’ essas folhas, diminuindo sua área foliar.

Nesse caso você observa que entre os híbridos de milho há diferentes graus de tolerância ao problema.

O segundo ponto de interesse é: por que algumas plantas infectadas tombam?

Ouvi de um especialista que o local de maior multiplicação dos mollicutes em uma planta de milho são os feixes vasculares, sobretudo aqueles do colmo, próximo à base da planta. Como resultado disso, ocorre uma resistência na passagem de seiva, que, forçada pela pressão interna dos vasos, extravasa pelos tecidos do colmo. Pude constatar evidências disso nas lavouras que visitei. Na imagem abaixo você pode ver que na periferia do colmo o tecido está com uma aparência encharcada, com um verde brilhante, diferente da coloração branca do centro.

Na fisiologia da planta, é interessante entender que quando se inicia o desenvolvimento reprodutivo há uma mudança na partição de fotoassimilados e compostos de defesa entre suas diferentes estruturas. As plantas não possuem anticorpos como nós, os animais, mas produzem compostos químicos que as ajudam a se defender das infecções por fungos, bactérias e vírus. Durante o desenvolvimento vegetativo, boa parte da energia produzida é destinada à manutenção das folhas, bainhas e colmos, isso muda com o florescimento. Após o início da fase reprodutiva a prioridade passa a ser a espiga e os grãos, assim, a maior parte da energia é deslocada para o crescimento e desenvolvimento dessas estruturas, em detrimento da integridade do colmo e das folhas. Como resultado há uma maior propensão às doenças.

O processo que descrevi acima ocorre naturalmente, com ou sem a presença dos mollicutes e vírus, mas o que muda quando a planta está infecta? Nesse caso, a vulnerabilidade às doenças que já é natural (para a fase reprodutiva) aumenta. O resultado: aumenta-se também a ocorrência de podridões de colmo.

Os fungos causadores de podridão de colmo em milho são um caso clássico de patógenos oportunistas. Phytium sp., Colletotrichum sp., Fusarium spp. e Diplódia sp. aproveitam que o colmo está fragilizado para infectarem o tecido. O seiva extravasada na medula se torna um substrato rico para esses fungos, que passam a se multiplicar numa velocidade maior do que àquela que ocorreria naturalmente. Esse cenário combinado com a alta incidência de plantas infectadas pelos mollicutes termina nas imagens catastróficas de lavouras inteiras acamadas.

É impressionante o que podemos constatar num dia rodando lavoura. O problema da cigarrinha-do-milho sem sombra de dúvidas é complexo, o monitoramento atento e as informações certas são imprescindíveis para combatê-la!