Tubixaba tuxaua: o maioral dos maiorais

Quando um colega do RS me enviou a foto acima não hesitei em levantar a hipótese de danos por nematóides. Qualquer agrônomo que receba fotos com sintoma de reboleira pensa nessa  primeira alternativa, e esse caso não era uma exceção.

O espanto veio quando ele mostrou alguns vídeos das raízes de trigo com vários vermes ‘saltando’ delas. Milhares de minúsculas e delgadas ‘lombrigas’ brancas. Você pode conferir logo abaixo:

Esse vídeo foi enviado em um grupo de técnicos da região sul, com quem tive a satisfação de participar de alguns treinamentos. Entre algumas dezenas de colegas não houve algum que soubesse ‘palpitar’ sobre a praga. Não é pra menos, isso não tem nada a ver com o que a maioria de nós está acostumada sobre nematóide, nada que se pareça com meloidogyne, pratylenchus, cisto ou nematóide reniforme. Um bicho desse visto a olho nu é novidade para grande parte dos agrônomos, técnicos e produtores do país.

Me lembrei de uma curiosidade dita por um pesquisador da área, um nematóide intitulado o ‘maioral dos maiorais’ de tão grande que é, o tal do Tubixaba tuxaua. Levantada a hipótese o colega Rogério Silveira (a quem agradeço pelas fotos e vídeos) obteve o laudo de análise de nematóides confirmando o palpite.

Não se tem muitas informações sobre essa espécie e poucas ocorrências são encontradas por aí (felizmente), os danos podem aparecer em soja, milho, trigo e outras culturas (não sei dizer muito sobre sua magnitude). Compartilho esse registro para que mais colegas possam tomar conhecimento sobre esse inimigo que talvez venha a aparecer em mais lavouras pelo nosso país.

Eng. MS Geraldo Gontijo

De olha na lavoura de soja: sintomas e sinais na safra 19/20 – Parte III

Para arrematar o relato dos sintomas e sinais observados na safra 19/20 em lavouras de soja deixo o registro de algumas ocorrências de doenças que apesar de comuns tem lá os seus detalhes que merecem ser compartilhados.

Qualquer um que já tenha tentado identificar a ferrugem asiática (FAS) no aparecimento dos primeiros sintomas sabe a dificuldade que é poder “bater o martelo” e ter a certeza de o que vê é realmente ferrugem. Do outro lado, dificilmente você terá dúvida sobre os sintomas caso eles já estejam com severidade avançada, no final do ciclo da cultura. 

Uma curiosidade sobre a FAS é que possível observar uma diferença na forma com que os sintomas se expressam ao longo do desenvolvimento da cultura.

Normalmente, em uma folha com severidade avançada da doença, as urédias se espalham uniformemente por todo o limbo foliar.

Sintoma comum de ferrugem asiática da soja

Uma peculiaridade ocorre quando as últimas urédias se formam já no final do ciclo da cultura. Quando o ciclo chega ao fim e a queda natural das folhas se aproximam as urédias surgem agrupadas em pequenas áreas do limbo, em alguns casos se agrupam de tal maneira que podem ser confundidas com uma mancha foliar.

Agrupamento típico de urédias de ferrugem asiática da soja no final do ciclo

Encerrando meu relato falo um pouco de uma doença que ficou esquecida por alguns anos mas que tem reaparecido e aumentado seus danos a pelo menos duas safras. O crestamento de cercóspora (Cercóspora kikuchii) perdeu um pouco sua expressão à medida que o manejo de ferrugem se intensificou com o aumento do número aplicações e com o reforço de fungicidas multissítios. Hoje se especula que o surgimento de novas raças, tolerantes às circunstâncias de manejo, provocou um aumento dos danos por essa doença no campo.

O crestamento de cercóspora faz parte do clube das doenças de final de ciclo (DFC). Seus sintomas têm uma expressão pouco precisa, que vão de manchas foliares irregulares a um bronzeamento arroxeado aparentes já no final do enchimento de grãos (por isso DFC). 

Sintoma foliar de cercóspora em soja

Normalmente você irá observar uma maior quantidade de sintomas nas folhas do topo da lavoura, muitas delas adquirem uma textura coriácea (mais áspera ao tato). Concluindo o script, na colheita se observa os típicos grãos de cor roxa (o tegumento, a casca, dos grãos formados em plantas atacadas apresenta uma coloração púrpura bem chamativa).

Vale a pena aproveitar o relato para detalhar algumas informações interessantes e importantes. O período que vai da infeção ao aparecimento dos primeiros sintomas da doença (o que chamamos de período latente) pode ser bastante longo quando comparado a outros patógenos, para cercópora ele pode chegar a 3 ou 4 semanas (para FAS ele é de uma semana).

Outro ponto que merece destaque é que o patógeno pode ser detectado em qualquer fase da cultura em praticamente todas as estruturas da planta (folha, haste, pecíolo, vagem e grão) ainda que não haja sintomas visuais da sua presença (o que tem relação com a primeira informação descrita).

Por último, existem relatos de pesquisadores de que em um lote de sementes produzidas em uma lavoura doente mais de 80% das sementes purpuras (ou seja, com sintoma visual) originam plantas com sintomas da doença. No entanto, das sementes do mesmo lote que não apresentam o sintoma visual (coloração normal), algo próximo de 20% delas também dão origem a plantas que expressam a doença. Trocando em miúdos, existe uma boa proporção de sementes que podem estar contaminadas e não apresentar o tegumento arroxeado caso o campo de produção tenha incidência da doença.

A cercóspora é um dos patógenos mais frequentes em análise patológica de sementes, a boa notícia é que causa pouco impacto sobre a germinação e o vigor. O principal ponto negativo é que as sementes infectadas servem de inóculo inicial para a doença no campo, sobretudo em áreas de abertura.

Lavoura de soja com cercóspora nos terços inferior e médio

Na safra 19/20 sofri um pouco com a incidência de cercóspora nas lavouras que tive a oportunidade de assistir, incluindo áreas de primeiro ano de produção (em abertura sobre pastagem). Me chamou atenção em alguns casos o aparecimento dos sintomas nas folhas do terço médio e inferior no início do enchimento de grãos (foto acima). Até então estava acostumado a me deparar com esses sintomas no topo da lavoura já próximo à dessecação. Talvez 1 ou até 3 sacos de produtividade tenham se perdido.

Para me precaver, na safra 20/21 já está posicionado o uso do multissítio clorotalonil em uma ou duas aplicações entre as últimas da lavoura. Muitos trabalhos de pesquisa no ciclo 19/20 apontaram ser esse o manejo mais eficiente para controle do crestamento de cercóspora nas lavouras de soja.

Vamos ver o que a safra 20/21 nos reserva…

Eng. MS Geraldo Gontijo

De olho na lavoura de soja: sintomas e sinais na safra 19/20 – Parte II

Se você não for o tipo de técnico ou produtor que avalia cuidadosamente a lavoura, semana após semana, atento como um joalheiro que inspeciona o item de valor, provavelmente não notará os sintomas e sinais de um grupo bastante particular de doenças, àquelas que causam dano em haste e vagens. Qualquer desavisado talvez note algo anormal em uma lavoura atacada por antracnose, que concluindo seu ciclo demonstra uma quantidade exagerada de pecíolos caídos no chão, ou vagens que aparentam ter “morrido” antes da hora.

A dúvida que fica é se você é capaz de detectar o menor indício dessas doenças na lavoura, os sintomas mais breves e superficiais, e diferenciar os dois principais causadores desse tipo de dano, antracnose e phomopsis. 

Para um breve entendimento desse tipo de patógeno, tanto Colletotrichum sp. (causador da antracnose) quanto Phomopsis sp. (causador da seca da haste) compõe um grupo de fungos que colonizam estruturas mortas da planta, permanecendo na palhada entre uma safra e outra.

Eles produzem esporos que apesar de pequenos precisam da água da chuva para sua dispersão. Os respingos d’agua retiram os esporos dos corpos de frutificação (picnídios no caso de phomopsis e acérvulos no caso de antracnose) e os espalham à pequena e média distância ao redor do local onde foram produzidos. Por isso é comum encontrar sua distribuição em “zonas” pela lavoura, com locais mais e menos atacados.

Reboleira com coloração mais clara ao centro da lavoura

Talvez você não saiba, mas entre os fungos causadores de doenças na cultura da soja estes dois são alguns dos mais comuns de serem encontrados nas sementes. Não é difícil detectar incidências de 0,5 a 3% desses patógenos em sementes comerciais. Isso parece explicar a razão de encontrarmos plantas com sintomas dessas doenças em áreas de abertura, onde teoricamente não deveria haver presença delas.

Na safra 19/20 tive alguns problemas com lotes de qualidade duvidosa onde muitas plântulas apresentaram lesões castanho-avermelhadas nos cotilédones, uma evidência de antracnose (talvez em breve eu explique melhor sobre isso).

Lesão cotiledonar de antracnose

Com relação à antracnose existe uma boa variação na manifestação dos sintomas e capacidade de dano em soja. Uma das suas manifestações típicas é um escurecimento das nervuras da folha em sua face inferior, do verde para castanho-escuro.

Sintoma foliar de antracnose

Talvez o sintoma que mais chame atenção seja o colapso do pecíolo. Se acompanharmos com bastante atenção uma lavoura com esses sintomas é possível observar que tudo se inicia com um leve escurecimento do pecíolo na exterminada próxima à inserção dos folíolos.

Início do sintoma de colapso do pecíolo (antracnose)

Na porção escurecida ocorre o estrangulamento dos vasos condutores de seiva levando a murcha dos folíolos. Logo eles secam e o pecíolo antes verde toma uma coloração amarela, até se destacar da planta. Boa parte dos pecíolos já secos fica presa entre as hastes e trifólios, se olhar de perto é possível ver vários pequenos pontos negros espalhados irregularmente em toda sua extensão. Esses pontinhos são os corpos de frutificação típicos da antracnose (acérvulos), onde são produzidos os esporos para novas infecções.

A abertura de vagens ainda no enchimento de grãos (com uma aparência de um zíper mal fechado) é um outro indício de antracnose. Esse sintoma também pode até ter alguma causa abiótica, como períodos de seca seguidos de chuva intensa. Um “tira teima” para separar as suas causas pode ser o escurecimento da vagem nas extremidades da abertura (a típica coloração castanho escura que aparece junto com o patógeno).

Abertura de vagem provocada por antracnose

Em outros casos, as vagens podem ser infectadas ainda em sua formação ou no início do enchimento de grãos, nesses casos haverá abortamento dos grãos (ou até de toda a vagem) ou redução do seu peso. Essas vagens secam de forma prematura e ficam tomadas por acérvulos.

Vagens de soja tomadas por acérvulo (antracnose)

Esse mesmo sintoma que acabei de descrever também pode ser provocado por phomopsis (causador de seca da haste). Existe uma separação clássica dos sinais de antracnose e phomopsis, no primeiro caso os sinais de colletotrichum (os acérvulos) espalham-se aleatoriamente na superfície do tecido atacado, enquanto que os picnídeos de phomopsis normalmente aparecem enfileirados. Nem sempre é tão fácil assim separar esses sinais, na dúvida investigue com uma lupa. Os picnídeos tem um aspecto de um pelo de barba mal feita, enquanto que os acérvulos aparentam vário pequenos espinhos negros espetados em um mesmo ponto.

A seca da haste é uma doença muito comum que geralmente passa despercebida. A perda de algumas ramificações do baixeiro após o fechamento das entrelinhas pode parecer normal para alguns produtores e técnicos por ser um sintoma tão recorrente.

Seca da haste em soja (phomopsis)

Chuva intensa na colheita costuma ser um grande problema com essa doença. Caso a  lavoura demore muita a ser colhida depois de seca e tome chuvas frequentes nesse período é possível observar que muitas plantas se prostram e acamam. Essas plantas geralmente adquirem uma coloração cinza claro bem distinta daquelas normais e eretas. Se você olhar com cuidado irá notar os picnídeos enfileirados nas suas hastes.

Sintomas de phomopsis após a maturação da lavoura de soja

Os danos provocados por phomopsis acompanham a soja até a sua maturação. Vagens de plantas atacadas  apresentam uma deiscência prematura (se abrem ainda no campo), principalmente quando, já na colheita, períodos de intensa chuva são seguidos de tempo aberto e sol quente.

Deiscência da vagem (phomopsis)

Eng. MS Geraldo Gontijo

De olho na lavoura de soja: sintomas e sinais na safra 19/20 – parte I

Começo esse artigo recordando o conselho de um amigo que em um momento de dúvida, em prosseguir a carreira acadêmica ou me dedicar a consultoria, me disse: não há nada que nos ensine mais que uma safra bem vivida!

Aproveitando esse conselho, compartilho com você um pouco do que pude observar na safra 19/20, entre tudo que se passou nas áreas de alguns clientes nos estados de São Paulo e Minas Gerais. As imagens a seguir retratam as evidências de algumas doenças, seus sintomas (uma manifestação morfo-fisiológica de sua ação no tecido vegetal) e sinais (estruturas do patógeno nos tecidos atacados), um pouco do que você já pode ter ouvido falar por aí mas dificilmente deve ter encontrado bem representado em fotografias.

O primeiro sinal que vou retratar é uma manifestação curiosa de míldio em soja. A maior parte dos colegas que acompanha lavoura conhece um sintoma típico de míldio: pequenos pontos amarelos na superfície da folha que correspondem a um crescimento cotonoso branco na face inferior. O que poucos conhecem é uma manifestação de míldio caracterizada como sistêmica (foi assim que encontrei descrito em um livro de fitopatologia).

A coloração amarela e o crescimento cotonoso típicos estão presentes nessas lesões, no entanto, ao invés de pequenos pontos você pode observar uma grande mancha que cresce a partir da nervura central, cresce pelo limbo e “derrama” até a borda da folha. A mesma referência fala que esse é um dos poucos casos de infecção sistêmica por doenças fúngicas (o outro exemplo seria carvão em milho).

Caminhando pela lavoura um sintoma comum de se encontrar são plantas, isoladas ou em reboleias, com folhas “carijó”, que evoluem para murcha e seca (em muitos casos as folhas permanecem atadas à planta após sua morte). Existe uma enormidade de doenças que se enquadra nessa descrição, a maioria delas relacionadas a solo ou haste: macrophomina, fusarium, nematoide de galhas, cancro da haste, mofo-branco (MB).

Para diferenciar essas possibilidades o primeiro passo é procurar evidências da doença (sinais ou sintomas) na haste ou raiz. Isso pode excluir as possibilidades de cancro e MB (nesse caso as folhas murcham, mas não aparentam o sintoma típico de folha “carijó”) que atacam as hastes, das demais, que atacam o sistema radicular.

As hastes de plantas atacadas por cancro apresentam lesões castanho-escuras, enquanto àquelas atacadas por MB o crescimento cotonoso branco típico do fungo (seu micélio). Com o avanço do ciclo da soja as lesões de MB secam, as áreas recobertas pelo micélio adquirem uma coloração castanho-avermelhada, muitos escleródios se formarão no interior da haste, na região da medula. 

Investigando o sistema radicular você pode encontrar galhas (um indício nematoide), uma coloração acinzentada ou vermelho-castanho no colo da planta. Raízes e colo de coloração acinzentada se expressam em condição de estresse hídrico, condição ideal para manifestação de macrophomina (podridão cinza ou de carvão da raiz) que normalmente surge no final do ciclo da cultura.

A “podridão vermelha da raiz” (PVR) é uma doença causada por Fusarium sp., caracterizada por uma coloração vermelho-castanho próxima as raízes da planta, como o próprio nome sugere. Essa doença normalmente se manifesta em solos de melhor fertilidade, de textura mais pesada e na maioria das vezes com algum grau de compactação. Você provavelmente encontrará plantas manifestando os sintomas já no início da fase de enchimento de grãos, em condições de clima regular ou chuvoso.

A última evidência para concretizar o diagnóstico é a observação da coloração do lenho, na base da haste principal. As plantas atacadas pela PCR apresentam um escurecimento do lenho que contrasta com a coloração clara das plantas sadias (essa é uma evidência típica de doenças que comprometem o sistema vascular).

Planta infectada à esquerda e sadia à direita

Eng. MS Geraldo Gontijo

Identificação de doenças em milho: pinta branca ou holcus spot?

Caminhando entre as parcelas de milho em um evento técnico há alguns dias me deparei com alguns sintomas que geraram confusão de identificação entre mim e outros colegas. Qualquer um que conheça a cultura o milho sabe identificar com facilidade os sintomas das doenças mais comuns. É justamente essa facilidade que gera confusão quando doenças secundárias compartilham alguma similaridade com as características daquelas mais rotuladas.

O caso em questão envolvia as doenças das fotos abaixo:

Talvez sintomas mais avançados como esses que aparecem nas fotos não gerem tanta confusão quanto àqueles do início da doença, no aparecimento das primeiras manchas. De toda forma, você é capaz de diferenciar com segurança sintomas de pinta (mancha) branca e holcus spot?

Se você quiser identificar de maneira eficiente os sintomas de alguma doença a nível de lavoura deve ficar atento a três pontos:

I. Conhecer os sintomas e as principais características (o que é óbvio)

II. Saber as condições (ambientais) que o patógeno necessita para se desenvolver

III. Ter uma perspectiva sobre como os sintomas evoluem a médio prazo (o que é ignorado pela maioria)

Em se tratando de pinta branca e holcus spot a ideia geral sobre os sintomas é: pequenas manchas circulares de coloração branco-palha. Apenas com essas informações você não conseguirá diferenciá-las.

A pinta branca é provocada por uma associação entre os patógenos Phaeosphaeria sp. e Pantoea sp. (um fungo e uma bactéria) que necessitam de temperatura branda para o estabelecimento da doença, por isso é mais comum em lavouras acima de 700 m de altitude. Além disso o aparecimento da doença é mais frequente próximo ao florescimento, com forte evolução na fase reprodutiva da lavoura. Dias nublados e alta umidade relativa do ar são favoráveis ao aumento da sua severidade.

Holcus spot (nome originalmente usado pelos produtores americanos) é uma doença de ocorrência recente no Brasil. Causada pela bactéria Pseudomonas sp., pode aparecer em áreas de maior e menor altitude (já a encontrei em áreas a 500 m). É comum observar o aparecimento dos primeiros sintomas no início da fase vegetativa da cultura do milho, mesmo em condições de tempo ensolarado. Não existe referência de perdas expressivas por essa doença (pelo menos por enquanto).

Imagine que você esteja caminhando em uma lavoura de milho cerca de um mês após o plantio e encontre uma mancha circular de coloração clara, qual doença você supõe ser? E se essa for uma lavoura de segunda safra na região do vale do Araguaia no MT?

Os sintomas iniciais dessas doenças possuem certa similaridade, a coloração típica evolui a partir de uma lesão “encharcada”. No entanto, se você acompanhar em uma perspectiva de médio prazo é possível notar algumas diferenças na sua evolução.

No caso de pinta branca a lesão encharcada se torna totalmente preenchida pela coloração branco-palha, e uma vez que ela se forma não há crescimento da lesão. Também não há nenhum alo ou borda muito evidente na lesão.

Com holcus spot é possível perceber no centro da lesão encharcada um ponto claro, que cresce até formar a lesão circular. Mesmo nas lesões já formadas é possível ver um alo de coloração mais clara, que sinaliza seu crescimento. Com o tempo a lesão cresce em todo o limite dessa área mais clara. Nas lesões mais velhas é possível notar um bordo amarelo-castanho.

O sintoma típico (lesão circular branco-palha) também pode ser confundido com a deriva do herbicida dessecante paraquat. Nesse caso você não observará nenhum tipo de bordo ou alo na lesão, e tomando uma perspectiva sobre a evolução do sintoma não irá observar aumento no número de lesões (elas se formam apenas por ocasião da deriva). Falando sobre evolução dos sintomas, no caso de pinta branca a severidade da doença aumenta de maneira bem expressiva, chegando a “tomar conta” da maior parte das folhas do terço médio e superior. Uma severidade dessa dificilmente irá acontecer no caso de holcus spot.

A identificação de doenças pode ser simples em muitos casos, em outros exigirá uma leitura mais complexa. Um olhar sobre o todo (atento aos três pontos já citados) sempre garantirá um maior nível de assertividade. A essa altura talvez você já saiba qual das duas fotos (início do artigo) caracteriza pinta branca e holcus spot.

Por último compartilho com o colega um sintoma bastante peculiar que diagnostiquei ainda no início do desenvolvimento de algumas lavouras de segunda safra neste ano (2020). Considerando o que já discutimos considero a hipótese de ser holcus spot, mesmo assim é algo bem peculiar e inusitado (quem sabe com certeza o que pode ser?).

Eng. Ms. Geraldo Gontijo

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Anomalias em lavouras de milho: síndrome do crescimento rápido

Algumas vezes somos pegos de surpresa com sintomas e anomalias inesperadas em lavouras de grãos, muitas causam bastante estranheza e dúvida. Essa foi a expressão de um amigo quando há alguns dias me enviou algumas fotos do cultivo de milho de um cliente:

Rapid growth syndrome é como os americanos chamam os sintoma das fotos acima (síndrome do crescimento rápido na tradução literal). Apesar de não ser um tipo tão comum de anomalia em lavouras comerciais, certas condições ambientais ou até práticas de cultivo podem fazer os sintomas serem mais frequentes na safra.

Se você olhar atentamente as plantas com os sintomas da síndrome vai notar que elas apresentam as folhas mais novas enroladas com cartucho dobrado e torcido. Por algum motivo as folhas do cartucho perdem sua elasticidade ficando incapazes de se desdobrar adequadamente. As folhas mais novas ao crescerem continuamente pressionam o cartucho que, sem se desdobrar, acaba ficando com a aparência da foto acima (dobrado e torcido).

Normalmente esse sintoma é percebido em poucas lavouras e poucas plantas dentro da mesma lavoura, sendo comum que apareça em plantas isoladas. Na maioria das vezes você verá as plantas afetadas apresentando 5 ou 6 folhas desenvolvidas (estádios V5 e V6).

Talvez você não tenha visto necessariamente plantas com esse tipo de sintoma, mas já tenha reparado na lavoura algumas plantas com o topo amarelado.

Os sintomas que descrevi duram cerca de uma semana, após alguns dias as folhas das plantas afetadas se desenrolam. Algumas das folhas recém-emergidas ficarão amarelas por que estavam escondidas dentro do cartucho, mas retomam a cor verde em pouco tempo. Uma característica que se mantém por todo o crescimento da lavoura é a aparência ‘amarrotada’ na base das folhas afetadas.

O que pode provocar esses sintomas na lavoura?

 A causa essencial desse distúrbio é uma transição abrupta de condições de baixo crescimento para um crescimento acentuado das plantas. Na maioria dos casos isso está associado a condições climáticas e também a estresses.

As situações mais comuns são a transição de temperaturas amenas para condições mais quentes, como ocorre quando dias chuvosos e nublados dão lugar a outros bastante ensolarados. O mesmo vale para períodos de seca intensa seguidos pela regularização das chuvas.  Um fator que pode se associar a isso e intensificar a ocorrência dos sintomas é a cobertura nitrogenada, quando a retomada de condições favoráveis a assimilação do N pode acentuar ainda mais a taxa de crescimento após o período de menor desenvolvimento.

Vale lembrar que esses eventos devem ocorrer próximo ao estádio V5 para que a síndrome se manifeste. Essa é a fase em que há uma aceleração natural na taxa de crescimento da planta, que passa a emitir novas folhas no cartucho a uma velocidade maior.

Alguns pesquisadores relatam que injurias causadas por herbicidas também podem provocar os sintomas, apesar dessa ser uma causa menos frequente.  Na foto abaixo a suspeita é de que a aplicação de herbicida a base de glufosinato de amônio tenha provocado os sintomas da síndrome. Nesse caso plantas com cartucho torcido e dobrado estavam espalhadas pela lavoura nos locais de manobra do pulverizador, onde há ‘remonte’ da aplicação.   

Como disse, os sintomas persistem na lavoura por poucos dias, por isso não há motivo para alarde quando vir esse tipo de anomalia no campo. 

Eng. Ms. Geraldo Gontijo

 

 

Podridão de colmo em milho: o que muitos olhos não veem, mas o bolso sente!

Você é capaz de identificar situações anormais em uma lavoura?

O quanto sua percepção está treinada para identificar o problema abaixo?

Se você for um bom conhecedor da cultura do milho talvez tenha estranhado que a planta à direita tenha sua espiga ‘dobrada’ e madura enquanto há muitas folhas verdes na lavoura. Se observar bem, ainda encontrará folhas verdes no baixeiro.

O problema em questão passa imperceptível para a maioria dos produtores durante a maior parte do desenvolvimento da lavoura, muitos se darão conta do que se trata apenas na colheita, quando se depararem com as perdas no campo.

Se você ainda não sabe do que estou falando vou te levar para ver a condição dessas plantas no momento da colheita.

Esse é um exemplo típico de esgotamento do colmo, que em boa parte dos casos se refletirá na lavoura na forma de podridão. Nesse post não irei detalhar as características desse problema, quero apenas que você acompanhe a evolução dos sintomas no campo, desde as suas primeiras evidências. Contudo, há um ponto para o qual quero chamar atenção, talvez tenha reparado que eu disse ‘esgotamento’ e ‘podridão’. É importante você saber que existem duas naturezas para esse problema, uma fisiológica, ligada à nutrição e ao enfraquecimento dos tecidos da planta, e outra patológica, que trata de doenças provocadas por fungos, a maioria presentes no solo (estes dois fatores quase sempre estarão associados).

Em condições normais é comum notar que a planta de milho senesce (envelhece) a partir do baixeiro em direção ao topo, as primeiras evidencias de problemas no colmo aparecem justamente quando é possível observar o comportamento inverso. Em alguns casos, logo após o florescimento é possível observar que plantas isoladas na lavoura começam a morrer de cima para baixo, sintoma conhecido como ‘dieback’ (morte descendente).

A planta da foto acima teve seu colmo infectado por algum patógeno de solo provavelmente no início de sua fase reprodutiva. Você pode observa uma lavoura em ótima condição de desenvolvimento, as plantas vizinhas estão com folha verdes e sadias até o topo. Isso permite concluir que nesse caso a causa do sintoma é exclusivamente fitossanitária, talvez devido uma maior suscetibilidade do híbrido.

Quero que você acompanhe a situação a seguir:

Se observar de maneira atenta também encontrará na última foto uma planta com dieback (o topo já está completamente morto e o pendão aparece dobrado). Esta já é uma situação onde o componente fisiológico e sanitário do esgotamento do colmo se misturam, explico melhor. A elevada perda de área foliar provocada principalmente por mancha branca (observe a penúltima foto) compromete o enchimento de grãos, como forma de compensar o problema, a planta passa a remobilizar reservas do colmo a uma taxa maior do que normalmente ocorreria. Por resultado, o colmo enfraquece e se torna mais vulnerável ao ataque dos fungos de solo, que terminam por esgotar o restante das reservas e comprometer a saúde da planta. Observe a evolução dos sintomas:

Plantas tombadas e maturação precoce das espigas. No melhor dos casos o produtor conseguirá colher a lavoura e perderá apenas pela redução do peso de grãos, neste, para um híbrido onde é comum um PMS maior que 400 g haverá uma perda de mais de 30% neste componente de rendimento. Em outros, onde o sintoma não for identificado a tempo, se houver demora na colheita muitas plantas irão acamar e muita espiga deixará de ser colhida.

Existe ainda muito que se falar sobre podridão de colmo, mas por hora penso que saber identificar o problema a campo seja suficiente.  Te espero para mais uma conversa sobre o tema em uma outra postagem!

Eng. Ms. Geraldo Gontijo

 

Conhecendo um pouco da agricultura da África do Sul

A África do Sul não é do tipo de país reconhecido por suas estatísticas agrícolas, especialmente quando se fala em produção de grãos. Há algum tempo atrás tive a oportunidade de conhecer aquele lugar, além de uma infinidade de pontos turísticos, conheci a realidade de alguns produtores agrícolas de uma cidadezinha do interior de Western Cape, Moorreesburg.

À primeira vista me senti entrando numa daquelas cidades do meio oeste americano que se vê em filmes: uma avenida central com talvez uns dois quilômetros de extensão, larga, com calçadas amplas onde se contavam algumas revendas agrícolas, um mercado e posto de gasolina, e ao final um grande silo de grãos. Dos pouco mais de 12.000 habitantes a maioria era agricultor, brancos, de ascendência britânica ou holandesa, habituados a se comunicarem em africâner.

Na minha primeira viagem internacional como agrônomo notei que não parece importar a nacionalidade dos agricultores, onde quer que se vá todos falam sobre os custos de produção que nunca param de subir e do clima sempre instável e penoso, e esse foi o primeiro ponto que me chamou a atenção, o clima.

A África do Sul detém a maior parte do seu território sobre clima semiárido ou árido, no litoral é possível encontrar uma faixa de terra onde o clima é mediterrâneo, local onde se cultivam muitas frutíferas temperadas e se produz grande parte do leite desse país. Alguns quilômetros adentro do continente, onde ainda há influencia da maritimidade, encontram-se áreas de produção de grãos e pecuária, sobre tudo a criação de ovinos e o plantio de cereais de inverno. E aqui temos a primeira informação que pode gerar espanto, toda essa produção agrícola conta com algo próximo a 400 mm anuais de precipitação, sendo a maior parte realizada em sequeiro.

Com um regime de chuvas desses não há como produzir soja ou milho com tetos significativos de produtividade, mas para algumas culturas de inverno, onde a produtividade não passa de 4 toneladas de grãos por hectare, é suficiente. O regime de chuvas no Cabo Ocidental é bem peculiar, a precipitação ocorre durante o inverno, normalmente de maio a setembro. Pra quem é acostumado com as pancadas de chuva do verão brasileiro, a chuva na África do Sul é como uma garoa, mansa e constante, que cai durante alguns dias em todas as semanas da estação. Esse comportamento é fundamental para o sucesso dos cultivos, pois boa parte dos solos são rasos ou pedregosos. Com pouca profundidade efetiva, as lavouras necessitam de reposição constante da água do solo.

As principais culturas dessa região são o trigo, cevada, canola, aveia e tremoço, essas duas últimas utilizadas principalmente para a alimentação animal, entre esses cultivos, o trigo foi aquele com que tive a maior proximidade.

Existem alguns pontos interessantes quando comparamos a forma como eles cultivam trigo com a brasileira. Uma característica marcante deles é que o plantio é feito todo de maneira antecipada, ‘no pó’, como podemos dizemos aqui no Brasil. Como as chuvas são escassas, qualquer precipitação perdida pode significar alguns bons sacos a mais de produtividade, então os agricultores do cabo ocidental realizam a semeadura no fim de abril e começo de maio, uma quinzena antes de a chuva começar. Para dar conta dessa empreita eles utilizam semeadoras com alto rendimento operacional, muito diferentes daquelas que utilizamos aqui no Brasil.

Boa parte do maquinário Sul Africano é importada da Europa ou Austrália, as semeadoras de grãos miúdos seguem os padrões desses países e possuem características muito interessantes, elas são preparadas para o cultivo mínimo. Na África do Sul não se faz o cultivo de solo com aração e gradagens como se faz nos países de clima frio, no entanto, também não é feito o cultivo sobre palha como o Sistema Plantio Direto brasileiro. Por lá toda a palha produzida pelas culturas é utilizada na alimentação animal. Sem revolvimento de solo e sem palha as semeadoras fazem o plantio sobre o solo nu, equipadas apenas com botinhas (nesse caso configuradas para fazer uma escarificação profunda), sem a necessidade de discos de corte.

Outra característica interessante é que nas semeadoras de trigo tanto a distribuição de sementes como adubos é pneumática. Existe um reservatório único repartido em dois compartimentos (para semente e adubo), uma turbina acionada pelo trator comprime o ar dentro do reservatório expelindo as sementes e fertilizantes por um conjunto de mangueiras que levam esses insumos direto para os carrinhos de plantio (parecido com o que há em algumas semeadoras de soja e milho). Por lá é possível encontrar máquinas com mais de 40 linhas de plantio e até 12 metros de largura, com as quais se pode semear até 60 hectares de lavoura por dia.

Um último ponto que me chamou atenção no cultivo do trigo foram as taxas de semeadura e de adubação. Na minha realidade, cultivo desse cereal no Sul de Minas, é comum utilizar cerca de 100 a 150 kg de MAP e 180 a 220 kg de sementes/ha no plantio. Por lá o uso de fertilizantes e sementes é bem mais modesto, os agricultores utilizam de 20 a 30 kg de fósforo e cerca de 120 kg de sementes no plantio.

Com um regime de chuvas regular, o potencial de produção de trigo das lavouras do Cabo Ocidental fica em torno de 4 a 4,5 ton/ha.

Essas são apenas algumas particularidades da agricultura daquele lugar, posso afirmar que qualquer um que conhecer as áreas de produção da África do Sul ficará impressionado com o nível de profissionalismo e organização de seus agricultores. É incrível conhecer uma agricultura tão elaborada em condições tão restritivas.

Ao lado esquerdo, Penna, o amigo que tive a oportunidade de conhecer e quem me mostrou a agricultura na África do Sul

Eng. Ms. Geraldo Gontijo

Adubação nitrogenada em milho: velhos paradigmas e novos aprendizados

Uma das coisas que aprendi trabalhando com agricultura é que não podemos considerar nada como uma verdade absoluta, critérios técnicos mudam ao longo do tempo, paradigmas são quebrados e construídos a cada safra.

Quando falo para meus clientes sobre o manejo da adubação nitrogenada na cultura do milho, quando ensino os meus alunos sobre o assunto, sempre digo que é melhor antecipar do que atrasar a cobertura. Quem cultiva milho a mais tempo talvez se lembre de como eram os padrões de adubação: ureia parcelada, aplicada entre 4 e 8 folhas. Assim que comecei o trabalho de consultoria, foi esse um dos primeiros paradigmas que quebrei, passei a recomendar todo o N até a terceira folha, em alguns casos aplico toda a necessidade da cultura logo após o plantio. Para que pudesse chegar a essas recomendações, foi preciso entender melhor o ambiente de cultivo e aprender algumas coisas sobre a cultura do milho, explico melhor a seguir:

  • Milho sobre palhada de trigo

    A maioria dos meus clientes cultiva milho verão ao invés de milho safrinha, as áreas de cultivo estão a mais de 900 metros de altitude em solos muito argilosos, sendo que parte considerável é semeada sobre palhada de trigo ou aveia.

  • Alguns pesquisadores argumentam que em condição de campo, o tempo entre a aplicação do N e o uso metabólico do nutriente pela cultura pode chegar a mais de 15 dias. Nesse intervalo de tempo ocorre a solubilização do fertilizante, a dinamização do nutriente por processos bioquímicos no solo, a absorção pela planta, sua metabolização e por fim o uso na síntese de compostos úteis no organismo vegetal.
  • Na composição da produtividade da cultura do milho, o potencial de produção é definido com quatro folhas, onde a maior parte das estruturas da planta, incluindo primórdios foliares e do pendão, já estão formados. Nos estádios que se seguem, em V8 e V12 define-se o número de fileiras e o tamanho da espiga. O N deve ser ofertado no tempo e quantidade certos para maximizar esses processos e garantir a melhor produtividade.

Na realidade que descrevi a elevada altitude, as chuvas irregulares no início do verão e o excesso de palha atrasam a disponibilidade do N aplicado. Para atender a demanda da lavoura em V4 o fertilizante deve ser aplicado 3 estádios antes, já na primeira folha, logo, antecipar a cobertura é a solução.

Talvez você agora esteja se perguntando:

  • Aplicar todo esse fertilizante antecipadamente não aumenta as perdas?
  • E a necessidade da cultura nos estádios de desenvolvimento mais avançados? A planta não absorve N no estágio reprodutivo?

A resposta para esses questionamentos não é simples, na realidade, é tão complexa quanto à dinâmica do nitrogênio. Para não correr o risco de me enveredar na teoria da fertilidade do solo e da nutrição de plantas entenda o seguinte: devemos fazer o sistema de produção trabalhar a favor da cultura e do agricultor.

Milho sobre palhada de trigo em R3 em rotação com soja verão

Para entender melhor minhas recomendações, vou ponderar alguns pontos. Em primeiro lugar eu opto pela comodidade, recomendo nitrato de amônio ao invés de ureia. Apesar de ter um maior custo, faço a aplicação desse fertilizante sem me preocupar com as previsões de chuva por que sei que nesse caso as perdas por volatilização serão mínimas. Em segundo lugar, protejo meu investimento em adubação com um sistema de produção equilibrado, apoiado no tripé: perfil de solo, rotação de culturas e palha!

Palha em decomposição próxima às raízes

Para facilitar o entendimento sobre o que acabei de dizer o importante é saber que o perfil de solo garante a distribuição do sistema radicular em profundidade, assim, a maior parcela do N que lixiviar (caso lixivie) poderá ser absorvida nas camadas mais profundas. A palha e a rotação de culturas auxiliam na ciclagem do nutriente. Uma parte considerável do fertilizante aplicada será imobilizada pelos resíduos vegetais, enquanto estiver sendo utilizada pelos microrganismos decompositores estará protegida dos processos de perda e gradualmente será disponibilizada para o sistema. Nesse caso é preciso fazer do processo de imobilização um aliado, para isso o ‘timing’ de aplicação e o ajuste de doses são fundamentais. Com todo o sistema funcionando bem, o milho responderá com algo próximo a 1 saco de grãos por kg de N aplicado na safra de verão.

Confesso que consegui compreender bem tudo isso que acabei de dizer apenas nessa última safra. Entre os erros que a gente comete um dos mais graves me parece ser querer multiplicar processos sem entender os fundamentos que suportam eles. Agora vou contar a você uma experiência diferente.

Na última safra vivi um desafio novo como consultor, em um projeto recente de assistência técnica acompanhei a produção de milho numa situação completamente distinta daquela que vinha experimentando. O cenário foi: áreas de abertura sobre pastagem, solos de textura média e precipitação elevada (2.300 mm por ano), tudo isso a 300 metros de altitude. Como as minhas recomendações de adubação vinham dando certo me parecia que a alternativa era simplesmente replicar o processo, o resultado você pode ver na foto abaixo:

Lavoura manifestando deficiência de N na folha oposta e abaixo à espiga

A lavoura acima manifestou deficiência de nitrogênio como eu não via há muito tempo, as espigas ficaram pequenas e leves, pesando não mais que 140 gramas. Um dos componentes mais afetados pela nutrição deficiente foi o peso de mil grãos, que neste caso ficou entorno de 280 gramas (em áreas de alta produção esse indicador costuma ficar acima de 350 g).

Se compararmos os dois casos que citei fica mais fácil entender a raiz do problema técnico apontado. O ambiente de produção mais desafiador, com alta pluviosidade e textura leve, e a ausência de um sistema de produção elaborado leva à diminuição da eficiência do uso do fertilizante nitrogenado. A falta de um sistema de produção elaborado jogou contra a lavoura e o agricultor nesse caso.

Em uma rotina de assistência técnica o primeiro desafio é saber o que fazer para solucionar um problema, nesse caso conhecer os fundamentos por trás dos resultados agronômicos é fundamental. O segundo problema é como fazer para construir essas soluções. Os desafios ainda me aguardam no campo, com eles vêm também novos esforços. Espero poder contar em outra estória um resultado diferente para esse novo desafio.

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Me surpreendendo com a cigarrinha-do-milho na safra 17/18

No último dia 17 de novembro estive viajando pelo interior de São Paulo e tive a oportunidade de visitar algumas áreas de lavoura na região de Casa Branca, a convite de um amigo dos tempos de faculdade. Pra quem não conhece, Casa Branca é uma cidade situada próximo à divisa com o Sul de Minas, compreendendo um dos maiores perímetros irrigados do país. Além do cultivo de cana-de-açúcar, se vê muito citros, batata, soja e milho por ali.

Os danos provocados pela cigarrinha estão na boca do produtor onde quer que se vá nesse país, confesso que participei de muitos encontros técnicos sobre o problema no último ano, como consultor, me deparei com a praga em alguns de meus clientes. Embora não seja novidade, me surpreendeu a expressão dos danos que encontrei nas áreas de pivô, sobretudo, por que eram lavouras de milho semeadas no fim de agosto e início de setembro. Nessa situação, o plantio precoce deveria garantir o escape da lavoura do pico de população da praga, e a temperatura amena diminuir a velocidade com que se multiplica.

Aproveitando o caso, vou compartilhar contigo o que vi e que pude aprender nesse último ano sobre a praga.

A maioria sabe que a cigarrinha é vetor de um vírus (raiado fino) e dois mollicutes (enfezamento pálido e vermelho). Se os danos da praga ocorreram em alguma área que tenha visto, você constatou que a maioria das plantas atacadas (que provavelmente estavam tombadas) não apresenta nenhum sintoma nas folhas ou no colmo. Esse é o primeiro ponto de interesse, algo em torno de 90% das plantas infectadas não demonstra nenhum tipo de sintoma externo, sendo assim, pode haver três situações distintas:

– essas plantas poderão tolerar o problema e produzir espigas dentro de padrões aceitáveis;

– poderão sofrer com a infecção e produzir espigas fora dos padrões normais, com menor tamanho e peso de grãos;

– poderão vir a tombar e deixar de contribuir com a produção da lavoura.

Em uma das áreas que visitei naquele dia pude ver uma lavoura com alta infestação de cigarrinha sem nenhuma planta acamada. Você pode detectar que a infestação estava alta pela quantidade de fumagina nas folhas baixeiras. O fungo Capnodium sp. que cresce sobre a folha (aproveitando a excreta açucarada do inseto) impede a atividade fotossintética. Com balanço energético negativo, a planta ‘descarta’ essas folhas, diminuindo sua área foliar.

Nesse caso você observa que entre os híbridos de milho há diferentes graus de tolerância ao problema.

O segundo ponto de interesse é: por que algumas plantas infectadas tombam?

Ouvi de um especialista que o local de maior multiplicação dos mollicutes em uma planta de milho são os feixes vasculares, sobretudo aqueles do colmo, próximo à base da planta. Como resultado disso, ocorre uma resistência na passagem de seiva, que, forçada pela pressão interna dos vasos, extravasa pelos tecidos do colmo. Pude constatar evidências disso nas lavouras que visitei. Na imagem abaixo você pode ver que na periferia do colmo o tecido está com uma aparência encharcada, com um verde brilhante, diferente da coloração branca do centro.

Na fisiologia da planta, é interessante entender que quando se inicia o desenvolvimento reprodutivo há uma mudança na partição de fotoassimilados e compostos de defesa entre suas diferentes estruturas. As plantas não possuem anticorpos como nós, os animais, mas produzem compostos químicos que as ajudam a se defender das infecções por fungos, bactérias e vírus. Durante o desenvolvimento vegetativo, boa parte da energia produzida é destinada à manutenção das folhas, bainhas e colmos, isso muda com o florescimento. Após o início da fase reprodutiva a prioridade passa a ser a espiga e os grãos, assim, a maior parte da energia é deslocada para o crescimento e desenvolvimento dessas estruturas, em detrimento da integridade do colmo e das folhas. Como resultado há uma maior propensão às doenças.

O processo que descrevi acima ocorre naturalmente, com ou sem a presença dos mollicutes e vírus, mas o que muda quando a planta está infecta? Nesse caso, a vulnerabilidade às doenças que já é natural (para a fase reprodutiva) aumenta. O resultado: aumenta-se também a ocorrência de podridões de colmo.

Os fungos causadores de podridão de colmo em milho são um caso clássico de patógenos oportunistas. Phytium sp., Colletotrichum sp., Fusarium spp. e Diplódia sp. aproveitam que o colmo está fragilizado para infectarem o tecido. O seiva extravasada na medula se torna um substrato rico para esses fungos, que passam a se multiplicar numa velocidade maior do que àquela que ocorreria naturalmente. Esse cenário combinado com a alta incidência de plantas infectadas pelos mollicutes termina nas imagens catastróficas de lavouras inteiras acamadas.

É impressionante o que podemos constatar num dia rodando lavoura. O problema da cigarrinha-do-milho sem sombra de dúvidas é complexo, o monitoramento atento e as informações certas são imprescindíveis para combatê-la!